BEATRIZ

14-05-2021

Beatriz do Passado

Esta é a história de uma menina um tanto quanto misteriosa. Tudo começou com uma infância atribulada: idas ao hospital recorrentes, um internamento inesperado e um diagnóstico de asma e rinite alérgica. Teve os seus percalços na saúde com noites em que acordava sem conseguir respirar até que a mãe a viesse salvar. O instinto e mãe é realmente algo notável. Também tem a sua arqui-inimiga: a água. Adora piscinas e adora praias, mas o oceano assusta-a e água que lhe chegue ao peito já a deixa ansiosa porque lhe limita os movimentos e ela não sabe nadar. Teve os seus quantos sustos, um dos quais nem se lembra por ser um bebé, mas aqueles dos quais se lembra e a sensação de não ter um "suporte" na água são o suficiente para fazê-la recuar. Mas teve uma infância feliz.

Dizia que queria ser médica, veterinária, advogada, cabeleireira, adora animais e nem o ser alérgica a eles a impediu de se aproximar. No infantário, a professora dizia que ela era o seu computadorzinho porque a memória desta rapariga lembrava-a todas as manhãs do que tinha que fazer. A festa de finalistas foi uma coisa bonita com fitas amarelas e ela a representar uma médica. A primária foi o primeiro desafio, mas não menos divertido. Nunca gostou muito de comer na cantina, sentia-se intimidada e a sua estatura sempre à pequenina fazia com que todos a tratassem como uma bonequinha ou que que fizessem dela gato-sapato. Lembra-se de quando nevou no segundo ano e vieram todos cá para fora, de se empoleirar nos ferros, de esfolar joelhos, de fazer bolas de lama, tudo a que tinha direito. Mudou de escola no terceiro ano e a mãe foi trabalhar para lá. Arranjava maneira de fugir na hora de almoço para ir ter com a mãe pois não gostava da cantina e nos intervalos andava à beira dela só depois começou a fazer amigos. Reconhecida pela sua inteligência e por ter a mãe na escola, achava-se uma estrela em ascensão e uma privilegiada, ficava muitas vezes até tarde na escola então arranjou muitas maneiras de se entreter. Lembra-se de dar tudo para uma peça de teatro e de ser a escolhida para o papel de protagonista, e de ser sempre a apresentadora de palestras, festinhas ou eventos que houvessem. Adora sobretudo a feirinha que havia todos os anos, as festas (com direito a fatiotas brilhantes e danças engraçadas) de final de ano, e foi com lágrimas nos olhos que se despediu do 1º ciclo. O segundo ciclo trouxe um pouco mais de adversidades, mas Beatriz tinha a vantagem de conhecer a escola, pois passou lá muitas vezes nas reuniões da irmã e quando a mãe trabalhava lá. Os professores já a conheciam através da irmã e a Beatriz só queria ser tão memorável para eles como a irmã tinha sido. As boas notas continuaram com uns percalços a matemática mas tem imensas boas memórias de percorrer a escola à noite enquanto as reuniões decorriam, das festas das listas e dos concursos em que participava e algumas vezes ganhava. A entrada no terceiro ciclo aconteceu na mesma escola, portanto a mudança não foi muito grande, tirando algumas disciplinas. Houve assim uma "guerra" com miúdas lá da turma por causa de uma amiga em comum, começaram a surgir os "rapazes", e qual não é o espanto dela quando dois se declaram...sem retorno. Foi o início da adolescência. Passado um ano, foi mudada para a secundária e andar na secundária no oitavo ano meio que incha o ego de qualquer um... e intimida também. Pouco e muito mudou: as aulas continuaram iguais, detestando história e geografia, cruzou caminhos com colegas com histórias de vida intensas e inimagináveis e uma "rapariga" que lhe mudou meio mundo do avesso...aí ela soube o que era não ser correspondida. No meio disto tudo, continuava a ir ter com a mãe no fim das aulas para poupar viagens e ajudava as crianças de lá, sentido-se importante e autoritária por ser mais velha. Depois veio o secundário: os melhores e mais difíceis anos dela até então: era preciso mais esforço e de repente já não era a que tinha as melhores notas, ficava talvez no top 5 se tivesse sorte. Os amigos começaram a crescer, a agrupar-se e a namorar e ela ficou muito confusa por ver que não se encaixava em lado nenhum e que parecia de um mundo aparte. Lentamente queria que os intervalos acabassem para poder focar-se só nas aulas e não ter de pensar na solidão. Também não queria estar em casa: a ida da irmã para a universidade tinha deixado tudo vazio o que só lhe dava mais tempo para se sentir sozinha e os pais...bem nem sempre eram a melhor companhia. No entanto no décimo ano teria enormes acontecimentos: a viagem a Londres foram os melhores 4 dias da vida dela, sente falta desses dias todos os dias...ela muito sonhou em viver lá, estudar lá...ser de um mundo diferente, estar em meio à língua que adora...mal sabia ela que sairia de lá a conhecer alguém muito especial. As aulas de inglês eram sempre as melhores pois estava em vantagem: adorava a professora e era um às em tudo o que envolvesse a língua. E cada trabalho, cada apresentação era feito para marcar, impactar. O décimo primeiro foi de longe o mais difícil academicamente, tanto que não tem grandes memórias dele: mas foi quando se juntou à equipa de voleibol e encontrou um sítio onde se revelou indispensável e um mecanismo de cooperação e relaxamento para fugir aos dias stressantes. O décimo segundo passou rápido demais...foi de longe o melhor ano que ela teve: projetos incríveis, primeiro beijo, coração partido, baile, fim de um capítulo na história dela. Nos últimos dois anos de secundário de repente havia um motivo para ter intervalo, tudo para o ver, havia um motivo para ansiar o próximo dia só para acordar com a mensagem de bom dia e mal esperar para ir dormir para ter a mensagem de boa noite. Foi uma história de romance de Romeu e Julieta que saiu sempre inacabada e podemos chamar a tragédia mais bela que já se viu.

Nesses anos todos Beatriz reparou que não era como os outros: não falava abertamente com os pais, afinal namoricos só quando fizesse 18 anos e ai dela que acontecesse, assuntos banais ou muitas questões aborreciam os pais e a frigidez em casa era notável. Discussões eram frequentes. Não podia sair muitas vezes nem podia ficar até tarde, não estava com os amigos a não ser no horário de escola e sentia-se triste quando ouvia a história dos fins de semana deles. Será que não confiavam em mim para ser como os outros? Muito era diferente e isso causou estranheza e conflitos internos.

Sem se aperceber Beatriz fugia dos sentimentos que não gostava de sentir e foi perdendo oportunidades por sempre fugir, nunca lutar, não queria ser mais gozada pelos outros e as poucas tentativas que tinha para se impor eram falhadas. Sair com os amigos de repente tornou-se mais uma tortura do que uma alegria pela ansiedade (não descoberta) que isso lhe causava, e fugir disso só piorava as coisas pelo arrependimento que se seguia. E a história repetia-se. Aquela que diziam sempre que teria um futuro brilhante sentia que não encaixava no mundo onde vivia e só queria sair, recomeçar noutro lado, sem família, sem amigos, sem memória, completamente sozinha. E aquilo que ela mais queria afastar era o que mais a prendia cá. A irmã era sucedida, ela era um tanto quanto saída da casca, a menina que sempre foi certinha. As tentativas de se encontrar eram recebidas com "vais sair assim? Pareces uma bruxa toda pintada? Tu gostas disso?". Sentia-se invisível num mundo onde só os corajosos sobreviviam e tudo o que ela queria era ser vista por mais do que sempre diziam: inteligente. Ela gostava de ter conhecimento, mas um ser humano é muito mais do que isso.

Beatriz do futuro longíquo

Esta é a história de uma mulher que eu idolatro. Ela tem sempre aquele lado misterioso que cativa todo e qualquer um, ajuda sempre quem precisa, mas esta já sabe ver os limites e sabe quando está a dar mais de si do que aquilo que deve. Ela travou batalhas e venceu a guerra com a sua maior inimiga: ela própria. A ansiedade continua lá, mas ela sopra-lhe um beijo e pisa-a com a sua ousadia e coragem e todos os dias mostra ao mundo aquilo de que é feita e quão forte uma mulher pode ser.

Ela superou muralhas e é atualmente uma investigadora já com algum conhecimento por ter feitos avanços significativos na área da saúde. Voltou a Londres como sempre quis, voltou ao lugar onde foi o mais feliz. Está a ponderar viver lá, mas tem que avaliar bem os prós e os contras. Pode ter melhorado em muitas coisas, mas se há coisa que esta mulher não dispensa é uma boa lista e organização. Ela ainda tem ideias mirabolantes, fala depressa e entusiasma-se com tudo o que mexe. Vive as séries e chora pelos personagens, mas ela sempre gostou dessa parte e se a souber controlar não tem que ser uma coisa má. Ela é independente, mas visita os pais todos os fins-de-semana e não dispensa um domingo em família. Vive perto da irmã com certeza, a sua heroína não sairá da vida dela por mais do que uns dias. Tem o cão que sempre quis e vive realizada, feliz, mas procura sempre mais. Ela é viajada. De certeza que passou por muitos lugares.

Beatriz do futuro próximo

Ela é quem eu mais admiro. Ela é aquilo que eu desejo. Ainda que a custo ela venceu-se e está na universidade a estudar para ser uma investigadora de renome. Está a pensar fazer Erasmus em Londres, se for possível. Aprendeu que, mesmo que tenha custado, os amigos, a família que ela encontrou na universidade valeu a pena todas as batalhas que ela travou consigo mesmo. Até mesmo as que perdeu. Ela marca coisas com os amigos e não arranja desculpas para não ir depois porque ela sabe que ansiedade até ao momento nada se compara á alegria de estar com eles. Ela não anda à procura de ninguém porque sabe que só precisa dela mesma para ser feliz, mas sabe que caso aconteça já não irá mais arranjar desculpas para destruir a sua felicidade. Há uma primeira vez para tudo e todas as situações embaraçosas levam a momentos futuros incríveis onde a prática se revelou uma bela aliada. Há coisas que só aprendemos a fazer, fazendo-as.

Ela aprendeu a não se criticar tanto. Ela sabe que ser humano é também ter defeitos e cometer erros e mesmo que as coisas não corram bem à primeira, desta vez ela não desiste e tenta uma segunda, terceira, décima, quantas forem precisas. Ela recuperou a sua determinação. Como toda a gente ela tem dias cinzentos, dias em que só quer voltar para casa, meter-se debaixo das mantas e não voltar a sair. Mas ela também sabe que se aguentar mais um pouco, talvez amanhã não haja aulas e vão todos para uma tarde de cinema e passeio pela cidade.

Acima de tudo ela não foge. Ela enfrenta, ainda que a custo: críticas, dúvidas, pensamentos negativos. Ela deixou de se culpar pelo passado e aprendeu que nada pode fazer pelas decisões que os outros tomam. Ela ainda tem um longo caminho. Mas ela dá sempre a volta por cima, porque ela sabe que nenhuma tristeza dura para sempre.

Beatriz do agora neste preciso momento

Eu sou quem escrevi isto tudo. Sou aquela que expus tudo do meu passado, tornando-o numa história porque é o que faço melhor. Sou aquela que tentei colocar todos os meus desejos para o futuro, ainda que de forma sucinta porque...porque.

Sou aquela que caminha um pouco todos os dias neste percurso, aquela que no meio da floresta vai encontrando trilhos e que sabe que só os percorrendo é que descobre o que está no fim deles, mas que ainda fica parada sem percorrer nenhum. Não nos enganemos, eu já dei mais passos em frente em certos trilhos, mais passos do que daria há um ano atrás; mas é um caminho tumultuoso com vários obstáculos e eu não posso ir muito depressa para não recuar mais do que recuava. Eu sou aquela que se calhar ainda se recusa a sair com os amigos, mas também sou aquela que mesmo contrariada já conduziu à chuva coisa que ela não tinha feito até ao momento e que se aventurou a meter uma mudança mais alta no carro, coisa que ela receava fazer noutras vezes. Posso ainda ser aquela que pensa mal de si mesma, mas também já é aquela que contraria esses pensamentos. Posso ainda fugir a certas emoções, mas também já sou aquela que as vive durante mais tempo, para se acostumar com elas no futuro.

Continuo a sonhadora. Anseio encontrar a pessoa determinada. Desejo perder a que sabota. Todas estas facetas ainda vivem em mim e todas elas farão parte de mim, mas eu sou aquela que está a tentar o melhor que pode "controlá-las" para não ser controlada por elas. Sou aquela que diz á irmã que sim vou contigo para o Porto na próxima semana para fazermos isto e aquilo e que já não pensa que vai estar num ambiente ao qual está acostumada até segundos antes de ir, mas vou na mesma. Eu continuo a mesma e já não sou mais eu. Tenho comportamentos do passado, mas já os contrario de paro com eles quando me dou conta de que eles acontecem. Ainda sou aquela que não gosta de críticas, mas sou aquela que está a aprender a lidar com elas. Sou aquela que vai percebendo que não sou vítima das circunstâncias, certas coisas (muitas) apenas aconteceram e eu na altura não soube lidar com elas o que resultou numa erupção de dúvidas sobre quem eu sou. Sou aquela que vai percebendo que não tive culpa do que fiz no passado porque não tinha as ferramentas que tenho agora e que vou tendo para as mudar no futuro.

Sou aquela que sabe exatamente que comportamentos tenho que mudar, que caminho preciso de seguir. Mas também sei que ninguém me pode criticar ou censurar por não o fazer do dia para a noite! Devagar se vai ao longe sempre ouvi dizer, e posso andar a passo de caracol, mas todos os dias eu percorro nem que seja um metro da maratona que quero completar. Sou aquela que neste preciso momento tem muita coisa que quer dizer e que deseja saber explicar. As palavras sempre foram minhas amigas e sempre foram as que mais me obrigaram a trabalhar: seja na escola ou em mim. Porque elas não cedem facilmente e sussurram de volta "trabalha mais em ti, esforça-te mais se nos queres encontrar". As coisas que mais valem a pena nesta vida são as que dão mais trabalho, também sempre ouvi dizer. E o que é que valerá mais a pena do que eu?

Ainda sou aquela que se pergunta todos os dias: será que vou conseguir? Mas também sou aquela que me obrigo a acreditar que sim.

Já não sou a Beatriz do passado e todos os dias eu quero acreditar que me transformo um bocadinho que seja na Beatriz do futuro.

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@2020 por MissFénix
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