DIÁRIO DE UM FANTASMA
Às vezes não se trata de passar muito tempo no telemóvel, de estar viciado num jogo ou passar o dia a ver séries e filmes. Trata-se de encontrar um refúgio do turbilhão de pensamentos que nos atormentam e de essa ser maneira que arranjamos para não ter de lidar com o que nos destrói por dentro.
Às vezes não se trata de ler livro atrás de livro ou de ver a mesma série, filme ou ler o mesmo livro vezes sem conta. Trata-se de escapar do mundo real e por momentos vivermos dentro do livro e aquele mundo fictício ser o nosso, trata-se de ser a nossa maneira de desligar do mundo. E trata-se de encontrarmos conforto na história que já conhecemos, dos personagens que amamos e dos vilões que odiamos. E o sentimento de recuperar a consciência durante uns segundos é aterrador porque a vida real vem à tona de uma só vez e o nosso coração falha algumas batidas e os pulmões não querem receber ar. Por isso é que vivo dentro dos livros.
Eu sei qual seria a solução ideal para a pessoa que estou a tentar deixar para trás: conseguir fazer o curso sem ter que sair de casa, do sítio onde eu adoro viver porque adoro. Mas a pessoa que me estou a tentar tornar sabe que não se faz uma omelete sem se partirem alguns ovos e que isso não é possível e por isso restam-me duas opções: sofrer um bocadinho no início e lutar pelo aquilo que acho que quero fazer e dar um rumo à minha vida; ou aquilo que eu não quero que aconteça. Posto assim é uma decisão óbvia e eu sei o que é melhor para mim, para quem eu quero ser..., mas quando me teletransporto para o momento de lá estar uma onda de pânico ainda me invade e mundo começa a girar à minha volta. Por isso tento não antecipar as coisas e levo um dia de cada vez.
Como alguém que gosta de lógica e que gosta de ter uma causa, problema e solução, claro que me tem sido difícil não ter uma "causa" específica para tudo o que aconteceu e às vezes pergunto-me se tenho o que é preciso para chegar onde quero e realizá-lo, mas também sei que há coisas que não têm explicação. Por isso tento pensar "aconteceu porque ainda não era a hora e te espera algo melhor que só virá depois" ... porque se o ser humano não acreditar que as coisas têm que ter um propósito, a humanidade já estaria condenada há muito.
Uma coisa que eu fazia muito era estar com a ideia da universidade na cabeça até ela se tornar insuportável para mim passando alguns tempos e mudar de ideia e querer ficar cá a trabalhar e andava neste constante saltitar como uma fuga temporária do desconforto que ambas as coisas me causavam. E fazia o mesmo com o curso que queria escolher e onde o queria tirar. Mas eu não quero continuar a fazer isso. Há momentos onde receio estar a viver um replay do ano passado tendo fases boas e fases más. Mas eu não sabia na altura o que sei agora, não me entendia como me entendo agora (apesar de ainda não me entender muito bem). E sabendo de algumas "questões" que me fizeram não ter a coragem de tentar (falta de confiança, inseguranças, sobretudo o medo de tudo) eu quero saber como posso mudar. Para deixar de estar perdida e para poder encontrar a rapariga alegre e destemida quem em tempos já fui. Porque eu adoro essa faceta que está algures dentro de mim.