VIVER COM A CULPA
Desde o momento em que somos postos no mundo, são-nos dadas ferramentas para aprendermos a viver no meio em que fomos criados e para, futuramente, sabermos viver sozinhos, criar a nossa própria vida, o nosso meio. E no meio desses dois "mundos", durante essa transição, vamos criando expectativas e traçando objetivos, quer seja sobre que trabalho queremos ter, o que queremos estudar, etc. Mas o que é que acontece quando as expectativas são muito altas ou não conseguimos atingir os nossos objetivos apenas por nossa causa? Quando vivemos uma vida toda à espera de um certo momento, quando não há sequer um plano B, e quando esse momento chega, recuamos e não conseguimos ir em frente?
Sempre fui uma aluna relativamente boa e desde o meu 10º ano talvez que sonhava em ir para a universidade e no 12º descobri o que queria fazer. Consegui entrar no que queria, como podem imaginar estava radiante, desde sempre que sonhei com aquele momento, que sonhei com um mundo encantado que eu criei na minha mente. O que aconteceu? Quando caiu a ficha da realidade, o pânico e o medo tomaram conta de mim e não consegui seguir em frente. Deixei os meus sonhos para trás sem plano B.
Dois anos se passaram. Candidatei-me outra vez. Entrei outra vez. Não consegui seguir em frente outra vez. Seria de imaginar que ficaria "feliz" porque toda a gente sempre me apoiou, nunca ninguém criticou a minha decisão. Ninguém a não ser eu. Porquê? Porque não foi uma decisão que tomei. Eu própria não me consigo deixar seguir os meus sonhos, nem construir o meu futuro, mas ninguém percebe isso. Por isso é que tremo quase quando alguém pergunta pelo assunto porque eu não sei porque é que não consigo seguir em frente, não sei qual é o motivo para isto e para muitas outras coisas. Eu fique "presa" na vida e estou a tentar perceber como é que se segue em frente, como recomeçar, um passo de cada vez, um dia de cada vez. Não é fácil e maior parte dos dias acho que não vou conseguir ser uma pessoa normal, ter uma vida normal, que não consigo. É o que martela na minha mente constantemente: Não Consigo. E está preso comigo.
E eu culpo-me. Culpo-me por me ter dado esperanças, por ter dado esperanças a todos à minha volta, culpo-me por não ter conseguido outra vez, culpo-me por ter medo de seguir em frente, culpo-me por ter "medo" de arranjar um trabalho (vá-se lá saber porquê). Culpo-me por no fundo me odiar a mim mesma por me ter feito isto e por já ter magoado tanta gente, especialmente por me ter magoado a mim. Culpo-me.
O que eu quero dizer com isto é que apesar de vivermos com a culpa, estou agora a aprender que é possível desprendermo-nos dela e que com trabalho vai ser possível aceitar o que nos aconteceu e pararmos de nos culpar. Eu não sei quando é que isso vai acontecer comigo porque todos os dias eu culpo-me. Mas aos poucos se calhar vou arranjar algo que já não preciso de me culpar e de uma coisa tenho a certeza: não estou disposta a desistir e espero que nenhum de vocês desista. Vai ser uma longa "luta" e trabalhosa, mas: "Um passo de cada vez, um dia de cada vez. Teremos sempre o amanhã para tentar outra vez. Afinal de contas, nenhuma tristeza dura para sempre ..."