IDENTIDADE
07-06-2021
Estou há meia hora a tentar escrever isto. Porque 1) este eu queria partilhar aqui porque acho importante para mim fazê-lo e 2) não sei como fazê-lo sem denunciar muito dos meus e fazê-lo de modo a que percebam. É que eu tive uma mega epifania numa viagem e o tempo de chegar a casa erradicou quase 75% do que eu queria dizer. Então olhem vou ser eu e fazer isto como sei: espontaneamente e com a seriedade precisa que eu sei que tenho.
As pessoas não se conhecem. A pessoas conhecem rótulos, conhecem acessórios. Sabem o trabalho de uma pessoa, a aparência, os familiares, mas não sabem quem ela é. Ou se não conhecem assumem que sabem: sabem que a pessoa gosta de ficar em casa, é uma seca, bem-comportada; sabem que a pessoa naquele dia estava toda de preto e tinha piercings, deve andar na má vida. Exemplos e estereótipos mais que usados e gastos eu sei, perdoem-me. Se não for nenhuma das opções acima, impingem o que uma pessoa deve ser desde cedo: boas notas, juntar-se com alguém, ganhar bom dinheiro, etc etc, toda a gente sabe a lengalenga.
Eu achava que ninguém gostava de mim, que gostavam mais dos outros do que eu. Foi por isso que eu em casa tentei ao máximo ser como a minha irmã, foi por isso que na escola eu tentava ser como os meus amigos, dependendo de com quem estava. Sabem quem é que eu não era? Eu. Tinha a impressão de quando mostrava a cara era descartada, rebaixada, criticada porque não era o que estavam habituados a ver. Eu apaguei-me da existência, eu era nada mais do que um conjunto de máscaras à espera de serem usadas. Quem estiver a ler pode pensar “dramática, que exagero.” Se fosse antes nem ponderava fazer um texto destes e postar, agora sei que é o que preciso agora e mesmo a medo vou fazê-lo, porque só eu sei o que eu sinto e o que isto faz por mim.
Eu comecei a desgastar-me sem dar conta e comecei a privar-me de coisas novas porque eu não sabia agir num ambiente onde não soubesse quem queriam que eu fosse. Depois era criticada por não fazer essas coisas e arrependia-me por não as fazer. Ao longo do tempo fui ficando cada vez mais insegura comigo mesma e não confiava em mim para nada. Pudera, quem é que confia em alguém que não conhece? As pessoas são 100% elas mesmas quando estão sozinhas, acho que ouvi dizer uma vez. Tudo o que eu não queria era estar sozinha.
Muitos sabem que eu não gosto de falar disto, o que eu vou dizer de maneira nenhuma é justificação para as minhas ações, mas tenho que passar por aqui para isto fazer sentido. Eu não estou na universidade de momento não porque não quero, mas porque eu não me deixei ir. Por si só é uma ansiedade com medos associados e um início difícil. Eu já na altura, percebo agora, “sofria” de ansiedade extrema e medos “irracionais” consequentes da anulação de identidade, só que eu não lidava com isso. Para entenderem, o ser humano tem o instinto básico de sobrevivência que funciona mesmo que tudo o resto não funcione, e ele reconhece quais são as situações de perigo consoante o que vamos vivendo e em caso de perigo ele tem duas opções: modo de “luta” ou modo de fuga. O meu cérebro reconhecia tudo que fosse desconhecido como perigo extremo e só conhecia a opção de fuga, para ficar a salvo mais depressa. Naturalmente, as pessoas questionaram a situação e durante muito tempo eu fugia das pessoas por não saber responder.
Mas hoje, após cerca de 7 meses de terapia percebo: isso é um mero detalhe na minha história. Para as pessoas que ainda perguntam: mas é isso que me torna interessante? Uma dificuldade que eu tive, que estou a tentar trabalhar? O trabalho, um curso, não é isso que nos torna nós. São acessórios que decoram a nossa essência, que mais tarde contribuem sim para a pessoa que nos queremos tornar, mas que não nos definem.
Nós não devíamos perguntar o que é que uma pessoa faz da vida, devíamos perguntar sim coisas que realmente importam. “O que é que te faz esquecer que existe um mundo lá fora?” ; “O que é que te faz sentir feliz?” ; “O que é que te traz paz?”. De certeza que já lerem quinhentas quotes sobre isto, mas deixem-se levar. O que as outras pessoas pensam diz mais sobre elas do que sobre vocês, ninguém tem que gostar das mesmas coisas, nós não temos que agradar a ninguém a não ser a nós mesmos.
Sabem o que é que eu ganhei por tentar desde sempre agradar a todos, sempre preocupada com o que vão pensar? A sensação de viver numa prisão, de estra presa dentro de mim mesma. Estar constantemente a pensar “pronto agora vai ficar a pensar que sou assim, vou usar esta camisola em vez daquela porque senão já vou ouvir comentários, se responder assim fico melhor vista”, não me acrescenta nada de bom por estar sempre a pensar que passo é que tenho que dar, ou de que maneira tenho que agir para as pessoas gostarem mais de mim. Estarem seguros de quem são, dos vossos valores deve ser das melhores sensações que existem.
Não deixem que ninguém vos diga o que podem ou não ser. Qualquer um de nós pode tudo. O nosso valor não se mede em ações, não se mede em posses, não se mede. Ele simplesmente existe, todos nós somos worthy (português a falhar). Construir a nossa identidade eu acredito que seja uma coisa que leve quase a vida toda, mas não cometam o mesmo que eu, não desperdicem tanto tempo por causa dos outros, tentem não cair nas partidas que a mente nos prega. Eu quero acordar todos os dias sabendo que eu sou eu por mim, não pelos outros, que fiz o que fiz, que gosto do que gosto, que digo o que digo porque é assim que eu acredito que sou. Não fez lá muito sentido eu sei, desculpem, tentativa de filósofa falhada.
Olhem honestamente eu tinha coisas mais deep do que isto para dizer eu acho, mas nem que desgostei do resultado. Publicar isto é totalmente fora da minha zona de conforto, o que para mim é bom, é progresso. Para quem leu até aqui, obrigada 😊