INQUIETAÇÃO
Os domingos sempre foram os dias que menos gostei da semana. Ou porque se avizinha o começo de uma nova semana de escola, posteriormente porque passava a ser o dia em que a minha irmã partia para mais uma semana na faculdade/trabalho, mas principalmente por serem parados. Sim ok para uma pessoa que está parada (aliás parada não, "fisicamente/socialmente" até pode ser, mas eu estou a tentar trabalhar no que me está a impedir de viver, não é desculpa, é verdade) não deveria fazer diferença, mas ainda faz. E nunca gostei desses dias porque é quando a mente mais trabalha (no meu caso, em pensamentos negativos, para já). Hoje não foi exceção.
Começando por pensamentos que eu acho que são gerados pela extrema insegurança e falta de auto-confiança e auto-estima que habitam em mim, pela necessidade de controlar tudo e temer e recear tudo o que é desconhecido; relacionados com a faculdade (que surpresa). Nestes dias (e não só) faz-me uma confusão enorme todas as diferenças que existem entre o que eu conhecia da escola e do que é a faculdade: desde aos mais ínfimos detalhes como ser eu a escolher o horário e ter que tratar de tudo a coisas maiores como começar uma vida totalmente nova num sítio que eu não conheço cheio de gente que eu não conheço de lado nenhum e ter que me desenvencilhar naquele mundo. E a questão é que eu sei que isso é exatamente aquilo que eu preciso: porque preciso de uma mudança dessas e de descobrir quem sou sem a influência do que conheço; e porque eu acho sinceramente que é o melhor caminho para mim para depois me introduzir aos poucos no mercado de trabalho (em algo que gosto o que é melhor) que é algo que me causa confusão porque normalmente também tenho estágios primeiro, etc. Eu vejo pelos meus pais o que custa a vida, mas estarei eu à altura de fazer tal coisa? De todo o trabalho que isso exige? Uma pessoa extremamente ansiosa como eu... E a questão paira no ar: como é que eu na vida serei capaz de tais coisas?
Depois a parte de mim que tem dificuldade em lidar com emoções muito fortes e intensificadas pensa: daqui a uns anos formas vida própria, trabalhas, etc e fico genuinamente incomodada com a angústia que sinto pelas mudanças todas que isso implica. Claro que eu sei que não acontecem do dia para a noite, mas isso não faz com que custe menos imaginar isso. Nem precisamos de ir tão longe: daqui a uns meses (esperemos), toda a mudança de rotina, toda a mudança de cenário, ter que estar a "partir" outra vez aos domingos, deixar por outra semana a vista daqui, os ares daqui, a minha família e sim eu sei que não deixo nada mas a intensidade com que o sinto quando o imagino faz-me crer que sentirei a mesma angústia. Paralisante mesmo é quando me imagino lá, mas mesmo como me tivesse teletransportado para lá no primeiro dia por exemplo e saber que estou lá sozinha...assusta-me porque nessa situação tenho um ataque de pânico que é o que eu não quero quando lá chegar. Hoje li a seguinte frase "ensaiar a dor para aguentar a dor": será que é isso que faço ou é só mesmo antecipar situações dolorosas que podem nunca acontecer? Eu gostava de ter paz às vezes, de não sentir que absolutamente tudo me vai custar horrores. O sofrimento é sim necessário, mas eu acho que tudo tem o seu limite.
Crescer é necessário, é parte natural da vida, eu sei. E acredito mesmo que não seja fácil para ninguém. Mas toda a gente à minha volta parece saber lidar melhor com isso do que eu seja de que forma for. Enquanto que os outros se conseguem deixar levar e apreciar onde estão agora, eu parece que só me consigo focar nas mudanças drásticas que vão acontecer. Que não são tão drásticas assim, elas vão acontecendo e não acontece tudo de uma vez. Mas como estou a ter tanta dificuldade em processar a transição que leva a essas mudanças "drásticas", como me vejo sem a conseguir começar, sem a conseguir fazer, tudo me parece extremamente mias difícil do que se calhar é. E o pior é que nem o experimentei para o saber, porque nem isso consigo fazer, paraliso. É difícil explicar, é difícil crescer.
Estes dias vão estar sempre presentes. Mas sabem que mais, hoje ao fim do dia enquanto escrevo este capítulo, todos esses pensamentos parecem pertencer a um passado distante. Suponho que eles irão voltar para me assombrar, mas é temporário (espero). E fica mais fácil se tiverem a sorte de encontrar a vossa terapia para vos ajudar a lidar com estes dias. Quando me sinto assoberbada com tanto pensamento, sufocada com a angústia que sinto no peito, faço o que faço melhor (talvez não melhor, mas acho que faço bem): escrevo.
"Um passo de cada vez, um dia de cada vez. Teremos sempre o amanhã para tentar outra vez. Afinal de contas, nenhuma tristeza dura para sempre..."