PERSPETIVAS
Algo enganoso, no entanto fascinante. Como vemos as coisas do chão onde estamos a como (não) vemos as coisas quando estamos no ar num avião por exemplo. Ou como estando num avião vemos outras coisas. E é tudo devido às perspetivas. Pessoas diferentes olham para um copo enchido até meio e discutem se ele está meio vazio ou meio cheio, e diferentes perspetivas fazem-nos ver coisas que outras pessoas não vêm. E fazem com que outras pessoas não vejam o mundo com os nossos olhos.
Eu tenho uma parte dentro de mim que já não vejo há muito, infelizmente, que tomou conta de maior parte da minha vida e é alguém que eu adoro: era a primeira a ver o lado positivo em tudo, às vezes perdia-se um bocadinho, mas era a primeira a dizer que o teste ia correr bem a todos ou a oferecer-se para ajudar alguém. Só que essa parte parece-me a mim que tirou umas férias bastante prolongadas porque já não a vejo há coisa de um ano e deixou-me apenas com o instinto primordial de sobrevivência: sair de casa é stressante, tudo acarreta um perigo iminente, muitas pessoas fazem-me sentir claustrofóbica e o pior de tudo: tu não consegues, tu não podes, tu isto, tu aquilo e eu, nestes dias em que a primeira coisa que fiz ao acordar foi chorar porque tinha de suportar mais um dia de agonia, só me apetece dizer "já acabaste? Mais do mesmo, nunca me deixas em paz, já não te aguento mais."
E a parte difícil é que eu queria saber dizer ao certo o porquê de ficar assim, mas as palavras fogem e as frases não fazem sentido então calo-me e não consigo explicar nada. E eu queria, oh como eu queria, ver mais a perspetiva positiva das coisas, por uma vez deixar de pensar em tudo o que me pode acontecer, em tudo o que posso sentir, deixar de pensar nos ses e nos quandos e simplesmente parar de pensar. Só um bocadinho. Fica mais difícil sair de casa, mas também não vou colocar as culpas todas em mim porque eu sei ser analista e sei que a pandemia não ajuda, e de repente a ideia de poder socializar ou sair mais outra vez deixa-me nervosa. E sim a parte lógica de mim sabe que também é por deixar de ter uma desculpa para estar em casa e não aproveitar alguma coisa disto que é a vida.
Dispersei um bocadinho, mas isto para dizer que existem várias perspetivas dentro de nós, e para vos dar mais um motivo para não julgarem os outros, porque não sabem que perspetiva está a "assumir" o pensamento deles: estarão eles a ver o copo meio vazio enquanto vocês vêm o meio cheio? Eles não precisam de se sentir mais culpados por "não serem como os outros" ou por não se sentirem bem. Se forem como eu, acreditem eu tento explicar-me o melhor que posso porque o que eu quero é aprender a saber lidar com o que me puxa para trás para não ficar presa na corrente, mas é difícil expor em palavras algo que nós mesmos não sabemos explicar. Eu sinto que ainda não cheguei ao cerne da questão e incomoda-me porque sinto que é algo que preciso para avançar.
Alguns reconhecerão a frase que aqui vou deixar, que tem um significado subliminar para mim: "Nada se perde, tudo se transforma ."
"Um passo de cada vez, um dia de cada vez. Teremos sempre o amanhã para tentar outra vez. Afinal de