RAIVA
Na minha opinião, um dos sentimentos mais poderosos que se podem sentir e eu deparo-me muitas vezes com ele e vivo-o intensamente. Na verdade, eu acho que vivo todos os sentimentos intensamente e em demasia, mas este então nem se fala. Quando fico assim tenho que me isolar no meu quarto para não disparar para tudo o que é lado, como se costuma dizer.
Eu diria que a raiva se intensificou ao longo destes dois anos, mas não é exatamente verdade. Seria mais apropriado dizer que tive mias motivos para estar mais vezes com raiva. Desde coisas pequenas a coisas maiores havia e há muitas coisas que deixam fora de mim e as pequenas coisas são as piores e eu digo porquê. Comecemos com exemplos: os meus pais sempre foram um bocado mais rígidos e quando digo rígidos é no sentido de não oferecer tanta liberdade e às vezes até mesmo privacidade. Eu ficava zangada porque nunca batem à porta antes de entrar, porque eu não podia sair como os meus amigos, eu não podia ir almoçar fora com eles até muito depois de eles o fazerem, eu nem tive vestido de baile propriamente meu, levei um da minha prima. E isto parecem e talvez sejam futilidades, mas porque é que me isto deixa com raiva: porque eu depois pergunto-me o que é que eu terei feito para não merecer a confiança deles ou porque é que não posso ser como os outros e eu sei que a culpa não seria minha, mas ficava zangada porque eu via outros a viverem a adolescência que eu queria. E depois ficava com raiva deles por me tirarem isso e ficava com raiva de mim por ficar com raiva deles.
Houveram muitas vezes em que eu pus as culpas do que me aconteceu neles. Porque sempre me protegeram demais, porque a privacidade não era muita e a liberdade pouca também. Óbvio que nunca lhes disse nada, nunca lhes poria esse "fardo" em cima e eu sei que eles fizeram o melhor que podiam. Mas inúmeras vezes lhes pus pelo menos parte da culpa em cima. E por isso fico com raiva deles por terem deixado que isto me acontecesse, fico com raiva de mim por ter deixado que isto me acontecesse, com raiva do universo por ter que passar por isto tudo e não ver a luz ao fundo do túnel e mais uma vez com raiva de mim por pôr a culpa neles e por ser assim: uma pessoa que não enfrenta os medos e que está a deixar a vida passar porque é demasiado fraca para conseguir lutar por ela própria.
Hoje não há mensagem de carinho. Porque a vida muitas vezes não o é. E porque cada emoção tem o seu lugar e se agora estou a sentir isto ainda não sinto necessidade de o amenizar. Por enquanto deixo o sentimento correr-me pelas veias, deixo o sangue ferver (ok esta última passagem parece mesmo retirada de um livro) e sabem porquê? Porque me faz sentir viva.
"Um passo de cada vez, um dia de cada vez. Teremos sempre o amanhã para tentar outra vez. Afinal de contas, nenhuma tristeza dura para sempre..."